
1. Introdução: o fim da análise como questão aberta
Desde Freud, a psicanálise se depara com a pergunta: quando e como uma análise deve terminar? Freud sustentava que uma análise não deveria ser interrompida antes da resolução das resistências e da obtenção de uma “maior liberdade de ação” por parte do analisante. Contudo, o próprio Freud reconhecia que um final “completo” era quase sempre uma ficção reguladora.
Lacan radicaliza essa indeterminação ao deslocar a questão do fim da análise para a experiência do desejo e da estrutura do sujeito. Não se trata de um objetivo adaptativo, mas de uma transformação na posição subjetiva diante do desejo e do gozo. O final, em Lacan, não é um ponto fixo, mas uma torção na economia libidinal e significante do sujeito.
Ao longo de seu ensino, Lacan formalizou — e reformulou — diferentes modalidades de saída de análise, cada uma ligada a um momento teórico e político de sua obra. É sobre essas modalidades, e as polêmicas que as acompanham, que este ensaio se debruça.
2. Primeira modalidade: a “cura padrão” e a travessia da fantasia
No primeiro ensino, Lacan mantém a referência freudiana à “resolução das resistências”, mas lhe dá uma nova forma: o final se daria com a travessia da fantasia fundamental — a estrutura inconsciente que organiza o desejo do sujeito.
Como se daria essa saída:
- O sujeito deixa de ser “efeito” de sua fantasia para tornar-se sujeito do desejo.
- O analisante passa a não mais demandar do Outro uma resposta definitiva sobre seu ser.
- O sintoma é assumido como modo singular de gozo, e não mais como algo a ser suprimido.
Polêmica:
Esta concepção, embora potente, levantou críticas internas: seria possível “atravessar” a fantasia e manter-se para sempre do outro lado? Ou, inevitavelmente, a fantasia se reatualiza? Muitos apontam que o conceito poderia induzir a uma leitura idealizada e definitiva do fim.
3. Segunda modalidade: o “desejo do analista” e o ato analítico
Nos anos 1960, Lacan começa a falar do fim como produção do desejo do analista. Não basta a travessia da fantasia: é preciso que o analisante, no final, assuma uma nova função — não apenas “ter” desejo, mas poder sustentá-lo em posição de ato, como o analista sustenta na experiência.
Implica:
- O final se mede pela mudança na posição subjetiva diante do desejo e da castração.
- O analista não é um ideal a imitar, mas uma função a ser encarnada em ato quando se é convocado a fazê-lo.
Polêmica:
Esta concepção levou a críticas sobre um possível viés normativo: faria do analisante um “candidato a analista” como meta do tratamento. A própria ideia de “produzir o desejo do analista” foi acusada de apagar o caráter singular do fim para cada sujeito.
4. Terceira modalidade: o “passe” como dispositivo institucional
Em 1967, Lacan cria o Dispositivo do Passe, para dar um testemunho público e formal sobre a saída de análise. O analisante, em fim de percurso, transmite a dois “passadores” sua experiência, e estes levam o relato a uma comissão que pode reconhecê-lo como Analista da Escola (AE).
Objetivos:
- Verificar se houve a travessia da fantasia e a assunção do desejo do analista.
- Fazer do final um ponto de relançamento da psicanálise na Escola.
Polêmica:
O passe foi alvo de críticas intensas — tanto de fracasso de funcionamento (poucos testemunhos) quanto de suspeita de institucionalismo e elitismo. Alguns diziam que ele subordinava o fim da análise a uma validação externa, rompendo a lógica de que o fim é singular. O próprio Lacan, anos depois, mostrou frustração com o resultado, chegando a dizer que o dispositivo “fracassou”.
5. Quarta modalidade: a destituição subjetiva
Com o avanço do ensino, especialmente a partir do Seminário L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-77), Lacan enfatiza o fim como destituição subjetiva — momento em que o sujeito se vê separado de qualquer garantia de identidade advinda do Outro.
Características:
- Não se trata de uma purificação ou iluminação, mas de um ponto de vazio radical.
- O sujeito reconhece que não há Outro do Outro.
- O sintoma permanece, mas agora é manejado sem ilusões de supressão total.
Polêmica:
Alguns analistas consideram que a destituição é mais uma “experiência limite” do que uma condição necessária ou suficiente para o fim. Outros veem nela um risco de idealizar o esvaziamento como se fosse a própria libertação.
6. Quinta modalidade: o sinthoma e o “campo gozante”
No último ensino, Lacan desloca novamente a questão: o final da análise é a saber-fazer com o sinthoma — aquilo que não se atravessa, mas se amarra de outro modo. Inspirado em Joyce, Lacan propõe que o sujeito não se liberta do gozo, mas inventa um arranjo singular com ele.
Novidade:
- O sinthoma não é mais um obstáculo, mas uma criação.
- O fim não é dissolução, mas invenção que estabiliza o nó do sujeito.
- O campo gozante é o espaço dessa invenção, em que o gozo deixa de ser pura repetição mortífera e se torna material de obra.
Polêmica:
Alguns viram aqui uma “despolitização” da análise — do corte radical para um manejo pragmático. Outros criticaram o risco de transformar a psicanálise em uma técnica de adaptação criativa, perdendo sua dimensão de subversão subjetiva.
7. Conclusão: entre a ética e o impossível
As modalidades de saída de análise em Lacan mostram que o final não é um ponto fixo, mas uma elaboração histórica e teórica em movimento. Da travessia da fantasia ao saber-fazer com o sinthoma, passando pelo passe e pela destituição subjetiva, o que permanece é a ética da psicanálise: não ceder sobre o desejo e não se refugiar em garantias fáceis.
A polêmica é constitutiva. Se há algo que Lacan nos ensina é que o final da análise não pode ser normativo, nem previsível, nem protocolar. Cada saída é singular, e é nessa singularidade que reside a força — e a fragilidade — da psicanálise.
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