II. As Quatro Saídas de Análise
- Saída pelo Discurso do Mestre: Identificação ao Ideal do Eu
O sujeito encerra a análise identificando-se com um novo Ideal do Eu, substituindo antigos sintomas por uma imagem de si que funciona como amparo narcisista.
Trata-se de uma solução imaginária: o sujeito “resolve” seu mal-estar ao se ajustar às normas e ideais do Outro social.
Esta saída é uma captura no discurso do Mestre: a verdade (S1) continua alojada no Outro, o sujeito se submete à cadeia significante, e o gozo é recalcado, mascarado por uma posição de saber ou de poder.
Exemplo clínico: aquele que encerra a análise dizendo “Agora sei quem eu sou”, mas esse “eu” é um significante-mestre reeditado.
- Saída pelo Discurso Universitário: Saber como Defesa
Aqui, o sujeito transforma a análise em um saber sobre si, mas esse saber se cristaliza como um novo semblante, um saber que encobre a verdade do gozo.
O sujeito se identifica ao lugar do agente do saber (S2), mas mantém o objeto a no lugar da verdade velada.
Trata-se de uma saída onde a teorização se transforma em defesa, uma nova armadura simbólica contra a angústia.
Exemplo clínico: o analisante que termina a análise tornando-se um “especialista do seu sintoma”, mas sem realizar a separação subjetiva.
- Saída pelo Discurso Histérico: Repetição da Demanda
O sujeito não conclui sua análise, mas segue em eterna demanda ao analista, sustentando-se na posição de falta-a-ser ($), sempre interrogando o Outro sobre seu desejo.
Essa saída mantém a análise em um circuito fechado, onde o analista é mantido no lugar de suposto-saber, e o analisante preserva seu sintoma como ponto de gozo velado.
Trata-se de uma repetição da estrutura histérica: a verdade permanece inatingível, pois o sujeito não atravessa sua fantasia.
Exemplo clínico: o paciente que está sempre começando, nunca chega ao ponto de se responsabilizar por sua posição, e perpetua a transferência como demanda.
- Saída pelo Discurso Analítico: O Passe
A saída propriamente dita: o sujeito atravessa sua fantasia fundamental, confronta o objeto a como resto irredutível do gozo, e se separa da demanda do Outro.
Não se trata de encontrar uma “resposta”, mas de operar um deslocamento ético, onde o sujeito se autoriza de si mesmo e sustenta o desejo de analista.
No Discurso Analítico, o sujeito ($) está no lugar de agente, o objeto a é colocado no lugar de causa, e o saber (S2) é produzido como um efeito.
Essa saída permite ao sujeito a função do passe: não mais falar “sobre” o sintoma, mas a partir dele, sustentando a falta.
Exemplo clínico: o analisante que, ao finalizar sua análise, não mais demanda um saber ao Outro, mas suporta o não-saber estrutural, e pode se situar como analista.
III. O Atravessamento da Fantasia: Condição para a Saída Analítica
Lacan afirma que o fim da análise coincide com o atravessamento da fantasia. Isso significa que o sujeito confronta a estrutura de gozo que sustentava seu sintoma e sua posição subjetiva alienada. Não se trata de eliminar o gozo, mas de assumir a posição ética frente a ele, sem mais se servir da fantasia como defesa.
O atravessamento da fantasia permite:
A queda do Sujeito Suposto Saber.
A separação da demanda do Outro.
O encontro com o resto irredutível (objeto a), sem a tentativa de nomeá-lo ou recalcá-lo.
A passagem de analisante a analista (não como profissão, mas como posição subjetiva).
IV. Conclusão: A Ética da Saída
Lacan não propõe uma saída “feliz” ou “resolutiva”. A saída da análise não é um “estar bem”, mas um saber-fazer com o resto, uma relação ética com o próprio gozo. Das quatro saídas, apenas a que passa pelo Discurso Analítico (o Passe) constitui uma conclusão propriamente dita, pois opera uma subversão da posição subjetiva frente ao Outro, ao saber e ao gozo.
Encerrar uma análise, portanto, não é se curar, mas saber o que fazer com o que não tem cura.

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